Como contar aos meus pais que curto garotas?

Quando pequena, eu sempre soube que era um pouco diferente das outras meninas! Enquanto elas brincavam de bonecas e pegavam as maquiagens das mães, eu preferia brincar com o carrinho do meu amigo ou de espadas. Brinquedos são para crianças, eu sei, e não existe brinquedo de menino e de menina. Para mim, são todos de brincar! Mas todo mundo na minha família preferia me encher de Barbie e casinhas de boneca, nunca me davam um vídeo game quando eu pedia ou uma pista de corrida da Hot Wheels.

Desde pequena eu precisei lidar com machismo e homofobia na minha família. Quase todo mundo dizia que era errado, que era pecado e que ia contra as leis de Deus, mas eu nunca encarei você se apaixonar por uma pessoa independente do sexo como algo errado. E também nunca acreditei em Deus! Porém, era forçada a ir a igreja e concordar quando diziam que homossexualidade era algo ruim.
Cresci e mudei bastante, meus pais também. Mas não tanto. Eles ainda acham que homossexualidade não é algo muito bom, mas não possuem aquele pensamento super religioso como antigamente.

Se meu filho ou a minha filha descobrirem que são gays, o que eu vou fazer? Matar? Eu prefiro um filho vivo e gay do que um morto e ladrão, drogado ou traficante.

Essas foram palavras da minha mãe.

E meu pai também concorda com ela. Antigamente ele dizia que preferia ter um filho assassino do que “viado”. Mas eu sou um pouco cabeça-dura, não ligo para o que os outros dizem e apoio bastante a causa LGBT, então acho que ele aceitou isso e resolveu mudar. Para manter a paz entre nós, principalmente, porque brigávamos muito por questões bobas.

No sexto ano do colégio eu descobri que estava atraída por uma garota. Eu já sabia que tinha sentimentos por algumas de minhas colegas de classe, mas não passava muito tempo refletindo sobre isso. Enfim. Essa garota e eu nos tornamos amigas. Eu a ajudei com seus problemas, ela me deu suporte quando eu precisei. Gostava do cheiro do cabelo dela, do jeito que seus olhos piscavam e quando ela me abraçava. E eu me senti muito mal por isso porque eu não poderia contar que eu estava gostando dela, afinal, ela me acharia estranha. Mas eu nunca tive vergonha do que eu sentia, apenas medo de alguém que eu amo se afastar de mim, porque já aconteceu antes. Por outros motivos, mas aconteceu. Então eu engoli o que eu sentia e superei. Havia um garoto que tinha me conquistado e eu não pensava mais na menina do ensino médio, só conseguia pensar nele. E eu gostei dele por bastante tempo!

No oitavo ano, me aproximei de outra garota. Ela era incrível! No começo tivemos um conflito, mas depois foi resolvido e nos tornamos amigas. Bem próximas mesmo! Foi aí que eu descobri que não tinha apenas sentimentos por ela, eu tinha uma enorme atração sexual. Vocês vão dizer que eu era muito nova para saber o que eu sentia, e que ainda sou, mas eu realmente gostava dela. Isso é certo! E aí eu contei para ela que gostava de meninas e que me sentia atraída por elas, e ela falou que estava tudo bem e que não me julgava. Achei ótimo, tipo, ela não tinha se assustado. E se tivesse, eu não ia ligar muito, só ia ficar um pouco machucada. Porém, houve uma festa na casa de uma menina super minha amiga e íamos dormir lá. Quase nos beijamos, quase dormimos juntas. Ela era mais experiente, mas eu estava insegura. E quando terminou, passou um tempo depois do ocorrido e eu decidi contar o que eu sentia. Ela compreendeu, mas disse que estava apenas curiosa e que não sentia o mesmo. Me senti super mal, fiquei com raiva e mágoa. Disse coisas horríveis para ela, ela também me falou coisas péssimas porque a machuquei com as coisas que falei. E paramos de nos falar. Mas ela ainda mantém contato com as minhas amigas, mas foi superado e eu não ligo mais.
Foi uma grande experiência com ela e me fez ter certeza que eu gostava mesmo de garotas, mais do que de meninos. E o garoto do ensino fundamental? Puts, eu esqueci completamente dele depois da Maria (troquei o nome, claro) lá. E isso nunca foi um problema para mim. Digo, ligar com a minha sexualidade. Na verdade, eu não gosto de rótulos e que digam que sou isso, ou aquilo. Eu simplesmente gosto das pessoas por serem quem elas são!

Aí passou um tempo, um tempão na verdade. Eu superei, me livrei dos sentimentos ruins e resolvi me descobrir mais um pouco. Todos os meus amigos já sabiam, menos os meus pais. E isso me matava por dentro porque os amo muito e eles são os meus melhores amigos! Mas eu tinha medo da reação deles e sabia que não iriam conseguir mudar quem eu sou. Aí eu comecei a gostar de uma colega de classe. Ela era colega do meu melhor amigo. Eles viraram amigos, aí depois foi a nossa vez. Depois de um incêndio no colégio, fomos para uma praça próxima que tinha lá e sentamos para conversar. E ela me disse:

Eu gosto de garotas e garotos. Fico mais com meninos, mas isso não me faz mais hétero. Gosto de peitos também!

E eu lidei bem com isso. Concordei! E quando nos falamos, eu já gostava um pouco dela. Tinha um “crush”, digamos assim e minha amiga sabia, então ela sugeriu a ideia de nós duas ficarmos juntas. Só uns beijos, nada mais. Mas claro que eu não topei porque sou completamente tímida e ela não tinha interesse, ou eu pensava que não. Ao decorrer do ano ficamos muito próximas, parecia que nos conhecíamos de outras vidas. Eu fui me apaixonando, me apegando a ela e até dei uma metade de um cordão para ela, que chorou e ficou bastante emocionada. E quase no final do ano, eu senti ciúmes dela com um garoto e fui lá e abri o jogo. Disse que estava completamente apaixonada e que me sentia mal por isso porque éramos amigas. Falei que não queria perder a amizade dela e que ia sufocar esse sentimento até sumir. Ela disse que entendia, que era apaixonada por mim, mas superou. Porém, falou que o sentimento poderia voltar. E foi isso. Ainda somos amigas, ainda sou completamente apaixonada por ela e creio que estou conseguindo conquistá-la aos poucos, por mais que eu não entenda os sinais dela.

E foi nessa fase, com ela, que eu tive vontade de contar para alguém o que eu estava sentindo porque meus amigos não entendiam, eles achavam que eu ia me machucar muito porque éramos muito amigas. E eu queria contar para os meus pais, meus conselheiros, meus amigos. O medo me impedia! Me impede, até hoje. E recentemente, eles vêm com umas brincadeiras de que eu gosto de garotas, que eu vivo comprando livros sobre homossexualidade e que eles achavam que eu era gay. Essas coisas! Meu pai sempre foi brincalhão comigo, e nunca havia feito essas brincadeiras mas faz agora. E minha mãe, sempre que surge oportunidade, pergunta se eu quero contar algo para ela e se tenho um gosto diferente. Eu não sei como agir, como falar, como contar. Isso sempre foi uma coisa minha, eu nunca senti necessidade de sair falando para todo mundo que eu curto garotas. Aí que vem a dúvida: eu conto ou não? Eles são meus pais e não gosto de esconder nada deles, mas sei que eles vão se chocar e não tenho certeza de como vão reagir. Preciso saber o que fazer.

 

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8 Comentários

  • Que se chocar menina, eles já sacaram que você é homossexual. Aproveite essa brecha é fale logo, concerteza tu vai tirar esse peso das costas. Pior seria se eles nem imaginassem. Eles mudaram o comportamento deles sobre homossexualidade sabe porque? Por você, então chegou à hora de dizer à verdade ( que eles já sabem). Pelo visto, mesmo não sendo à favor, eles não deixaram de te amar por isso. Fique na paz.

  • Nossa somos idênticas kkkk. Também adora brincar com os meninos de espada, adorava brincar de hot wheels, Mas Steel etc. Nunca me interessei por Barbie e essas coisas. Era meio mulecona na minha infância e até sofria bullying por causa disso. Também como você, gosto de garotas desde que me entendo por gente. Na boa, acho que você não é bi. Eu também gostei de um garoto no meu ensino médio, mas comparando com os sentimentos que tinha por uma garota que conheci no inglês, vi que o que sentia por ela era muito mais intenso, vivo, natural, gostoso, sabe? Percebi que apenas sentia admiração por esse garoto que conheci. Gosto mesmo é de meninas. Mas enfim, não sei sua idade. Posso falar de mim, infelizmente minha família não é como a sua. São bastante fechado pra esse assunto e extremamente religiosos, mas mesmo assim, eu contei! Olha, foi difícil, minha mãe me disse coisas que me deixou horrorizada, minha irmã ficou três dias sem dormir. Minha irmã me falou que não tinha vergonha de mim (e de fato percebi ao longo dos anos [claro que antes de eu contar] que ela não tem problema nenhum com gays), ela tem medo é de eu ir pro inferno. Agora, minha mãe tem! O ÚNICO que reagiu melhor e que hoje comigo é super de boas é meu irmão (talvez o fato dele ser ateu tenha ajudado). Minha família já sabe, mas não aceitam. É um pouco complicado viu, colega? Não é fácil nem simples, é um processo doloroso. Agora acho que sua situação é bem diferente da minha. No meu caso minha família ficou chocada quando soube, mesmo eu tendo sido muleca na infância, sou hoje feminina e ninguém sequer suspeita! Acho que eles já sabem, acho que não seria nenhum problema, mas é preciso confirmar. Mas se eu por muitos mais motivos contra falei e hoje me sinto liberta quanto mais você! Enfim boa sorte!

    • Moça bonita, realmente as nossas histórias batem em alguns pontos. E, poxa, quem nunca quis ter um carrinho ou a pista de corrida da Hot Wheels? É tão irado! Enfim, o seu comentário ajudou bastante e MUITO obrigada. E eu também contei para os meus pais em fevereiro e passamos por algumas dificuldades, mas já está tudo tranquilo. Segundo o meu pai, ele não liga se eu gosto de meninas ou meninos, ou o que quer que seja. Ele só se importa com os meus estudos, futuro e quer que eu seja uma pessoa responsável e com um bom caráter. Eu o amo por isso! Minha mãe não lidou tão bem, mas já estamos acertadas, até porque ela é a minha melhor amiga. E eu não sei se eu sou bissexual, ou lésbica, ou o que for. Detesto rótulos e meu coração é tão grande que cabe todas as pessoas!
      Espero que sua mãe consiga lidar com a sua orientação sexual. É muito ruim quando alguém que você ama não te aceita por algo que você é. Estamos livres e podemos finalmente assumir as nossas identidades!

  • Teu pais já sabem. Através da ironia, eles tão tentando te dizer: me conte o que já sabemos. Te liberta.

  • Amiga, pelo que eu entendi (confesso que não li tudo) seus pais já sabem. Nem precisa contar.

  • Aleksandro Miritituba-Pará

    Belo texto Larissa!
    Digamos que a minha história se parece com a sua. Quando eu era adolescente gostava de garotas, depois dos meus 19 anos comecei a sentir atração só por travestis (atualmente tenho 25 anos).

    Nenhum pai ou mãe iria querer ter um filho gay, isso é óbvio!

    Tá na cara que seus pais sabem que você gosta de garotas, senão eles não estariam agindo diferentes, acho que esse é o momento certo pra você falar a verdade para seus pais, já que eles desconfiam, acredito que irão aceitar com mais facilidade.
    Beijos.

    • Obrigada, Aleksandro!
      Bom, eu sou bem nova e só tenho dezesseis anos, mas sempre soube que sentia atração por garotas. E concordo com você! Nenhum pai ou mãe quer ter um filho homossexual, mas os comentários de vocês me ajudaram bastante e eu finalmente me abri com a minha família. Meu pai aceitou numa boa e minha mãe teve dificuldades, mas está tudo tranquilo. É muito bom ser quem você é.
      Beijos. Obrigada de verdade por ter comentado!