Eu sofri abuso sexual na infância/adolescência

A minha confissão começa assim: eu sofri abuso sexual na infância/adolescência. Levei 24 anos para finalmente admitir para mim este fato.

Tudo começou quando eu tinha 10 anos (ele, à época, tinha 53 anos) em um hotel que minha família e eu estávamos ficando. Não lembro bem como começou, muito menos o porquê, mas me lembro bem de que estávamos no quarto, o marido de minha tia e eu, sozinhos. Apesar de me esforçar, não me lembro o que aconteceu, mas se não me engano tinha algo a ver com tirar a roupa ou então masturbá-lo. Isso continuou durante 5 anos (ou seriam 6? 7? Não, 5 ou 6 anos). Eu gostava muito de shopping (e ainda gosto, para falar a verdade) e esse era o argumento que ele utilizava: se eu o masturbasse, ele iria me levar ao shopping. Me lembro agora de quantas vezes falei que não, que fiquei quieta, em modo defensivo, constrangida. Ele rebatia minhas palavras/minhas ações dizendo algo como “quanto mais rápido fizesse, mais rápido iríamos ao shopping”. Por fim, fazia o que ele desejava até que ele atingisse o prazer. Pronto, conseguia ir ao shopping.

Minha mãe não confiava nele (até hoje não confia), não gostava de me deixar sozinha com ele, mas algumas vezes acontecia, pois ela trabalhava durante quase todo o dia. Me recordo de um dia que minha tia quase nos flagrou: estávamos no banheiro da chácara e ela entrou de repente, ele virou rapidamente e conseguiu disfarçar. A maior parte dos abusos se limitava a masturbação, mas uma vez, coincidentemente em um outro hotel na mesma cidade (em outro ano também), ele tentou me penetrar. Não conhecia o meu corpo, não sei se era penetração vaginal ou anal. Só me lembro de estar de quatro, me apoiando sob um móvel e quando ele me penetrou, dei um pulo de dor que fui parar praticamente do outro lado do quarto. Com o maior cinismo, ele me pergunta indignado algo como “O que foi?!”. Não, não perdi minha virgindade neste dia, nem com ele. Perdi bem mais tarde, com um rapaz da minha idade à época e, principalmente, com o meu livre consentimento.

Tentei dar um fim a isso de um forma bizarra: acho que ele ligou para o celular de minha tia (ou ela ligou para ele, não me lembro) e não sei como acabei falando para ele que não queria mais aquilo, tínhamos que “terminar”. Ele não reagiu bem, discutiu comigo. Quando terminamos a conversa, me senti mal. Tudo isso bem ao lado de minha tia, já que estávamos dentro do carro. Infelizmente, não foi o fim, os abusos continuaram. Até quando? Desculpe, mas também não me lembro exatamente como foi o fim definitivo. Já adolescente, criei mais coragem para negar o ato mais firmemente. Lembro de um dia que ele e minha tia estavam aqui em casa e, quando ficamos sozinhos, estávamos falando sobre alguma coisa, quando ele fez a menção de tirar o p. da calça. Falei que não e saí do ambiente. Nunca mais houve nenhum contato sexual entre nós.

Nas últimas semanas, estive pensando muito sobre este assunto, sobre as consequências em minha vida adulta. Lendo alguns artigos, percebi que não manifesto alguns efeitos que o abuso sexual infantil desencadeiam, tais como pensamentos suicidas, introspecção, depressão, estresse, transtorno de personalidade, alcoolismo, entre outros. Sou uma mulher alegre, divertida, adoro socializar com as pessoas. Mas certos aspectos da minha vida são bem problemáticos e talvez o que vivenciei tenha sua parcela de culpa. A ansiedade é algo que convivo desde sempre, minhas unhas são completamente roídas, sobra até para meu pobre cabelo. Mas isto é algo que convivo desde antes do início dos abusos. Talvez eles tenham piorado significativamente minha ansiedade. Meu maior problema está no envolvimento emocional com outra pessoa, em me relacionar amorosamente. Sou muito impulsiva, então, ao invés de ir conhecendo a pessoa devagar, já ofereço, quase de cara (ou então dando sinais discretos), a possibilidade de sexo. E assim acontece: me relaciono sexualmente e, em muitas das vezes, pronto, acabou. Namorei apenas uma vez e, depois que terminamos, gostei de apenas mais um rapaz, que depois me confessou que tinha medo de se relacionar. Preciso dizer que ambos começaram com sexo? Sexo, para mim, é mais um objetivo final do que uma consequência; é mais fácil de acontecer, pois, de acordo com a minha visão, não envolve necessariamente algum sentimento mais profundo. E hoje, sim, hoje, neste dia, isto se tornou um problema maior, pois descobri que gosto de um homem muito mais do que pensava e, após termos nos relacionado rapidamente em meu carro, ele me disse que não gostava muito de sexo casual, enquanto eu, por minha vez, tenho esse medo interior de me relacionar emocionalmente. Após conversar com meus amigos, estou disposta a enfrentar isto e tentar, pela primeira vez na vida, levar as coisas mais tranquilamente e deixar que acontecem naturalmente.

Só contei do meu abuso para meu ex-namorado. Eu tinha 23 anos. Eu levei 23 anos para falar para alguém sobre isto pela primeira vez. A primeira coisa que ele me disse foi que eu não era culpada. O interessante é que eu realmente não me sinto culpada pelos atos. Por que não falo para minha família? Minha mãe e meu tio não gostam muito dele, eles praticamente suportam a escolha feita por minha tia. Se eu contasse isso, a briga ia ser mais que feia. Este se torna o principal motivo também: minha família é muito pequena, meus avós não são mais vivos, somando todos, somos praticamente 5 pessoas. Minha família seria destruída e isso é algo que realmente não poderia suportar. Quem sabe de minha tia suportaria o baque de saber que seu marido abusava sexualmente de sua sobrinha? Por isso, prefiro guardar para mim o que passei.

Por fim, após confessar, estou me sentindo bem melhor, mais leve, estou com a decisão tomada de investir neste rapaz. Quem sabe o que o futuro reserva a nós?

 

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4 Comentários

  • Ola Mah, eu tbm concordo que a preocupação em destruir sua família sei lá, seria totalmente em segundo plano, isso é um absurdo e merece sim, que vc tome alguma decisão, não importa as consequências, afinal ele pensou em alguma para vc no futuro? Graças a Deus vc é bem resolvida e passa por cima das dificuldades da vida, mas isso não quer dizer que tenha q suportar tudo para o bem de terceiros. Está errado consigo mesma. Não tenha vergonha de coloca tudo isso a tona, como disse seu ex namorado, vc não teve culpa”. Na minha opinião isso não pode e não deve ficar impune. Ainda bem que não te conheço e nem te amo, ” senão eu como seu namorado ou marido, exemplo, não deixaria isso passar .

  • Não há como mudar o passado. Contar para sua tia seria uma vingança contra este mau caráter. Mas a que custo? Como você disse, sua família é pequena e poderia desagregar o que já é pequeno. Acho que você deveria seguir em frente fazendo o possível para deixar as coisas ruins caírem no esquecimento. Você é uma pessoa que tem a vida toda pela frente, não deixe fatos acontecidos no passado atrapalhar sua vida no presente. Seja feliz.

  • A instabilidade que poderia acarretar pra sua família tem de ser posto em segundo. Isso não pode ser mais importante que o mau que esse canalha já deferiu a você, provavelmente a outras crianças e possivelmente tornará fazer novas vítimas. Não tenho certeza que isso seja o real motivo pra continuar a omitir, ou se seria, o compreensível, medo de uma represália. Infelizmente judicialmente não há mais nada a se fazer, pra cadeia ele não vai, mas acredito que jogar a reputação desse canalha – que muitos deve conhecer como homem honrando – à ruína, é o certo a se fazer.

  • Como sempre o ser o humano só sabe pensar em uma coisa: Sexo. Pode até ser fundamental para a humanidade, mas o excesso disso desencadeia uma discórdia. Esse homem deveria ter o p**** cortado por tirar a inocência de uma CRIANÇA. Se tem uma coisa que me revolta, é ver que ainda existem pessoas assim, dementes. Mais óbvio, é claro que você desenvolveria algum tipo de problema futuramente, nem que fosse uma “simples” ansiedade como disse no relato. Impossível para um indivíduo esquecer tal coisa, é marcante, de um jeito negativo mas é. Sua mãe tinha razões para ficar desconfiada. Qualquer homem ou mulher que procura crianças para satisfazer suas perversões nojentas deve ser punido(a). Para mim é isso aí, não consegue se controlar, a lei também não deveria.
    A culpa não foi sua, aliás, a culpa não é de nenhuma criança que passa por isso, você simplesmente foi inocente e sua razão foi a de querer ir ao shopping. Mas, voltando, não pode ficar calada para sempre, tem que tomar iniciativa garota, deixar de ser submissa e de ter pena desse escroto. Se ele fez isso com você, imagina o que poderia fazer com outras crianças. Já pensou se fizesse com seu filho ou filha, ou até com a própria cria? Esse desgraçado poderia fazer pior e eu sei muito bem que não é isso que você deseja… Bem, simplesmente revoltante. Se eu estivesse no seu lugar, ah… Não perdoaria. E me desculpe, mas a família não vai ficar destruída, eu sei o que é ter uma família aos pedaços, mas um desgraçado desse merece ser humilhado para finalmente parar de abusar da pureza de nossas crianças. Ninguém vai ficar brava com a senhora não… Mas seu tio imundo pode ter o que merece.